Um pouco da história do feminismo libertário…

 Muitas das anarquistas não se consideravam feministas por acreditarem que esse termo designava as mulheres que lutavam pelo voto. Porém elas são consideradas feministas por suas preocupações com a emancipação das mulheres, que tem profunda relação com as ideias libertárias do anarquismo, já que este busca a emancipação humana. Desse modo o anarquismo engloba o feminismo, porém os termos “anarcofeminismo” ou “feminismo libertário” passaram a ser usados para dar mais destaque ao campo de atuação que se trata.

Feminismo libertário no Brasil:

O feminismo anarquista tem destaque no Brasil do começo do século XX. Nessa época muitas mulheres atuaram politicamente, em greves pelo aumento de salário, redução da jornada de trabalho, respeito no trato a elas e às crianças e em solidariedade a seus companheiros. Vale lembrar que nessa época, diferentemente de hoje em dia, trabalhadores de diferentes categorias frequentemente entravam em greve em solidariedade a uma outra categoria. Assim, por exemplo, quando os ferroviários paravam, os padeiros, sapateiros e outros também paravam. Foi por esse tipo de organização que a Greve Geral de 1917 foi possível no Brasil.

Maria Lacerda de Moura

Uma das militantes brasileiras de mais destaque da época foi Maria Lacerda de Moura. Ela foi professora, conferencista, jornalista, poetisa e escreveu vários livros que tinham como objetivo passar ideias sobre emancipação humana, questionando o papel da escola e da educação, da religião, do Estado, o fascismo, o militarismo e falando sobre controle da natalidade. Ajudou a fundar a “Federação Internacional Feminina” e o “Comitê Feminino Contra a Guerra”, nos anos 20, que tinham como objetivo articular as mulheres de São Paulo e Santos para além da luta pelo voto, articulada por outras feministas da época.

No caso da Federação Internacional Feminina alguns pontos de discussão eram: “assistência, sistemas coercitivos, trabalhos domésticos e trabalho industrial, seduções, jogo, infância delinquente, investigação à paternidade, júri, direitos civis e políticos da mulher, tráfico de mulheres, coeducação, casamento, (…) divórcio, salário, os crimes da maternidade fora da lei, eugenia, proteção aos animais etc”.

As feministas liberais da época criticavam as anarquistas por considerá-las muito radicais, e as últimas criticavam as primeiras alegando que sua luta era pouco transformadora, limitada à esfera pública burguesa e preservadora das relações hierarquizadas na esfera privada. Um exemplo disso é essa crítica feita por Isabel Cerruti, no jornal “A Plebe” em 1920:

“Revolução na praça, na casa e na cama”

“A Revista Feminina em seu programa propõe-se a propugnar pela emancipação da mulher conseguindo para ela o direito de empenhar-se em lutas eleitorais. (…) Como se a emancipação da mulher se resumisse em tão pouco…

O programa anarquista é mais vasto neste terreno; é vastíssimo: quer fazer compreender à mulher na sua inteira concepção, o papel grandioso que ela deve desempenhar, como factora histórica, para a sua inteira integralização na vida social (…).”

Outras militantes conhecidas são Maria Valverde e Sônia Oitica (filha do militante anarquista José Oiticica), que por volta dos anos 30 e 40 atuaram no teatro libertário e eram ligadas aos Centros de Cultura Social, de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde se discutia temas como moral sexual e sexualidade.

Uma crítica feita pelas feministas anarquistas é que os partidos políticos de esquerda da época diluíam a causa das mulheres na causa do partido, pois estes alegavam que elas deveriam se empenhar na luta pela revolução através do partido, relegando a causa feminista à questão da opressão de classe e criticando os espaços específicos das mulheres, ou seja, não reconhecendo uma opressão específica às mulheres, mas alegando que todos os que não são os detentores dos meios de produção são oprimidos pelo capitalismo (como se isso se desse da mesma forma para todos). Assim, para as anarquistas, a divisão das mulheres em partidos enfraqueceu a luta pela emancipação da mulher.

Feminismo libertário em outros países:

Emma Goldman

Nos Estados Unidos a figura de Emma Goldman se destaca. A militante nasceu em 1869 na Lituânia, mas se mudou para os EUA em 1885 (com 15 anos), fugindo de um casamento arranjado por seu pai. Lá teve contato com as greves pela jornada de 8 horas de trabalho, o que resultou nas mortes de muitos manifestantes – situação que ficou conhecida como caso dos “Mártires de Chicago”.

Sua militância tratava de temas como o controle de natalidade e o amor livre, militarismo e patriotismo como ameaças à liberdade. Apesar do início da sua militância ter tido mais contato com a ideologia de Bakunin, que utilizava a violência como meio para a revolução, no decorrer de sua vida e principalmente após se encontrar com Kropotkin Emma passou a ter ideias humanitaristas. Ela escrevia a revista “Mother Earth” e teve inúmeros relacionamentos, muitos deles com homens bem mais jovens, causando escândalo para a sociedade da época.

Em 1917 em uma manifestação contra o alistamento para a Primeira Guerra Mundial Emma foi presa acusada de conspiração. Ela foi deportada para a Rússia e conheceu Lênin, que havia executado e encarcerado anarquistas e outros dissidentes, além deste último alegar que a liberdade de expressão era um conceito burguês (liberdade esta tão valorizada por Goldman). Isso fez com que a anarquista escrevesse o livro “Minha desilusão com a Rússia”. A partir de então ela mora em vários países diferentes, morrendo no Canadá em 1940. Suas cinzas foram para o Waldheim Cemetery, ao lado dos mártires de Chicago.

Militante das “Mujeres Libres”

No caso da Espanha, durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), havia a milícia das Mujeres Libres, que atuavam ao lado da CNT-FAI (Confereración Nacional del Trabajo e Federación Anarquista Ibérica). O grupo foi fundado por Apolonia de Castro, Felisa de Castro, Maruja Boadas, María Cerdán, Nicolasa Gutiérrez, Soledad Estorach, Elodia Pou, Conchita Liaño, dentre outras. Durante a guerra o aborto foi legalizado na Catalunha, o grupo atuou pela educação das mulheres por uma maternidade consciente e propunha que elas fossem agentes da revolução para a construção de uma nova sociedade.

Havia a revista “Mujeres Libres”, editada e escrita exclusivamente por mulheres e que se dirigia a mulheres da classe trabalhadora com a intenção de atraí-las para a causa libertária. Falavam de causas como o anticlericalismo (alegando que a religião usava as mulheres como guardiãs da ordem social e moral tradicional), prostituição, o direito ao prazer sexual e o amor livre, alegando que a monogamia se relacionava estreitamente ao capitalismo e à propriedade privada.

Militantes do grupo “Mujeres Libres”

O grupo propunha uma solução coletiva para a emancipação feminina, conscientização e educação. Assim, na Espanha predominou um feminismo que não buscava direitos políticos, mas que fazia reivindicações trabalhistas e educativas, vendo essa luta com uma perspectiva de classe e relacionada ao anarcossindicalismo. A cultura e a educação eram vistas como fundamentais à emancipação humana.

 

Referências:

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Dicas para detectar a violência doméstica.

No dia 25 de novembro, dia internacional pela não violência contra a mulher, assisti a uma palestra sobre o tema e recebi de Irene Navarro, escrivã de polícia da 3ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, uma divulgação de como detectar situações de violência contra a mulher e o que é mais comum baseado em sua experiência:

A Violência Doméstica contra a mulher é composta por 4 fases distintas:

1ª) Acúmulo de tensão: a irritabilidade vai aumentando sem razão compreensível a aparente, as discussões se intensificam e surgem agressões verbais.
2ª) Exposição violenta: ocorre o descontrole e a concretização de atos violentos, é nesta fase que ocorrem os insultos e as agressões físicas; geralmente o autor está sob efeito de álcool ou algum outro tipo de substância entorpecente.
3ª) Dúvida e incerteza: momento em que a mulher se sente confusa e desorientada, o autor sente remorso pelas atitudes cometidas, pede perdão, chora, promete mudar, ser amável, bom marido e pai; conseguindo convencer a mulher da mudança.
4ª) De volta ao passado: o reinício de um novo ciclo, uma vez perdoado tem início uma nova fase de irritabilidade com aumento de tensão, o que ocorre a partir do momento que a mulher começa a usar a autonomia recém conquistada; o autor sente a perda do controle sobre a mulher, o que gera um novo ciclo de violência.

Não é necessário esperar uma manifestação agressiva. Dicas para reconhecer um agressor:

– O controlador: quem de nós não conhece aquela história do homem que quer saber se a mulher entra ou sai de casa, com quem está, como está vestida, aonde vai, quanto gastou, se recebeu ou fez ligações e com quem conversou nessas ligações e o que conversou?
– O dono da razão: esteja onde ou com quem for, desvaloriza, desautoriza ou insulta a mulher?
– O reincidente: aquele que já possui antecedente de comportamento violento com outra pessoa, mulher ou não; até agindo com os chamados atos reflexos, que são os atos repentinos e sem sentido (aquele que depois de agirmos, pensamos: “nossa como fui capaz disso?”); atos de crueldade e falta de arrependimento em relação a esses mesmos atos.

Os fatores geradores de violência doméstica mais comuns:

1º desemprego
2º uso de álcool e drogas
3º fácil acesso a armas de fogo
4º abandono e negligência das crianças

Aproveito para divulgar:

Reportagem sobre violência doméstica
Exemplos dos tipos de violência
Texto que trata sobre violência doméstica contra crianças, mulheres e homens
Música: Cosmogonia – o sentir que violenta (reparem na letra)

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Estupro no BBB?

Daniel e Monique

Na madrugada de domingo, dia 15, supostamente ocorreu um estupro no Big Brother Brasil, programa exibido pela Rede Globo. Enquanto a participante Monique dormia, bêbada e inconsciente, Daniel a teria estuprado. Alguns falam em jogo de marketing e racismo contra Daniel, o único participante negro. A Globo tentou omitir o caso, manipulou as cenas que foram exibidas e agora Daniel foi expulso do programa.

O problema é que no imaginário popular o estupro é relacionado a um homem estranho que ataca uma mulher em um beco escuro à noite, mas o estupro não se dá somente dessa forma, pois em grande parte das vezes ele é cometido por pessoas conhecidas, “amigos” ou da própria família. O estupro se define por um ato sexual feito sem consentimento. O caso de Monique é previsto na lei como “estupro de vulnerável”, ou seja, quando a vítima não consegue oferecer resistência ao ato (seja por estar entorpecida por drogas ou álcool, ter retardo mental e etc.). Se Monique não disse não, isso não significa que ela quis dizer sim.

O acontecimento serve para colocarmos em questão o que é um estupro, vermos que ele é mais comum do que gostaríamos de acreditar. Temos que lembrar que a responsabilidade do estupro é do homem que o comete, não da vítima. Cabe aos homens respeitarem as mulheres e não estuprar. Uma pessoa inconsciente não consegue dizer sim ou não, portanto não é uma boa ideia ter uma relação sexual com ela. Se a Globo deu bebida aos participantes, a mesma não obrigou Daniel a fazer o que fez, ele não é a vítima do caso e é o seu ato e não a sua cor que gerou isso tudo. Não interessa a roupa que Monique estava ou o seu comportamento habitual, sexo sem consentimento é estupro!

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Culturas para pensar…

Lendo um texto de antropologia de Marshall Sahlins, me deparei com este depoimento de Finau, chefe tonganês do início do século XIX. O chefe reflete sobre a descrição que lhe foi feita por William Mariner (inglês que estava na ilha Fiji) sobre o dinheiro:

“Se”, disse ele, “dinheiro fosse feito de ferro e pudesse ser convertido em facas, machados e cinzeis, haveria algum sentido em dar um valor a ele; mas, do jeito que é, não vejo nenhum. Se um homem”, acrescentou, “tem mais inhame do que quer, que troque por carne de porco ou gnatoo (tecido de casca de árvore). É claro que o dinheiro é muito mais acessível e conveniente, mas, então, como não se deteriora quando guardado, as pessoas vão acumulá-lo, em vez de partilhar com os outros, como um chefe tem de fazer, e vão tornar-se egoístas; ao passo que, se a principal propriedade de um homem fossem provisões, como efetivamente deve ser, sendo o mais útil e necessário, ele não as poderia armazenar, pois estragariam, e seria obrigado a trocá-las por alguma coisa útil ou partilhá-las com seus vizinhos, chefes inferiores e dependentes em troca de nada”. E concluiu dizendo, “Agora entendo muito bem o que torna os Papalagis* tão egoístas – é esse dinheiro” (Martin, 1827, 1:213-14).
* homens brancos

Zulus, sul da África

O que esse depoimento me fez refletir é na dificuldade que as pessoas têm em pensar fora de suas próprias culturas. Por ser anarquista me deparo frequentemente com a questão colocada por outros: “mas como seria possível existir uma sociedade sem o Estado?”. Elas esquecem que o que nós vivemos é apenas um modelo dentre tantos outros. O Estado não foi e não é algo universal (apesar da sua presença atualmente ser muito maior que sua ausência se olharmos com base em extensão territorial).
Sociedades sem Estado possuem diversos tipos de organização, baseadas em critérios também diversos. Algumas se baseiam no totemismo, outras em religião, outras em parentesco, etc. Nesse sentido, o anarquismo seria uma outra forma de organização, baseada no apoio-mútuo. Uma alternativa a esse sistema atual que favorece uns em detrimento de outros. A autogestão anarquista (ou autogoverno) é a forma mais prática de nos organizarmos em busca de nossos próprios interesses. O que deveria ser visto como absurdo é um Estado que atua por todos (porém de forma desigual) e ninguém responde por si mesmo (a não ser nas eleições), o modo como o status econômico é visto como essencial (lembrando que o dinheiro é apenas um pedaço de papel que não tem valor em si mesmo), a falta de apoio-mútuo que hoje existe entre os indivíduos da sociedade – sendo que as ações de cada um contribuem para a vivência de todos -, dentre muitos outros aspectos do sistema em que vivemos.

Yanomami, Brasil

Sobre a ideia anarquista não vou explicá-la no momento, esta não é a intenção da minha postagem, porém recomendo o livro “A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos” de José Oiticica como base para entender um pouquinho mais sobre esse tipo de organização, lembrando que não existem regras rígidas ou preestabelecidas, trata-se apenas de ideias e sugestões possíveis.
A minha ideia é sugerir que pensemos além do sistema em que vivemos: outro modo de viver é possível, basta querer (e lutar, muito) para que isso aconteça.

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A Slut Walk e a naturalização do estupro

Nos Estados Unidos tem ocorrido desde abril de 2011 em vários lugares a “Slut Walk”, ou “Marcha das Vadias”. Originalmente a palavra slut significa “mulher desordeira”, porém vulgarmente se traduz como “vadia”, o que já inicialmente abre caminho para pensarmos na mudança desse significado: há um pressuposto de que a mulher deve ser comportada, resignada, e as que não se enquadram nesse perfil são rotuladas de vadias.
A ideia da manifestação surgiu a partir do comentário de um policial canadense que disse: “se a mulher não se vestir como uma vadia, reduz-se o risco de ela sofrer um estupro”. Com isso vemos como a sociedade encara o estupro com naturalidade, e o pior: está culpando a vítima. Isso ocorre, em minha opinião, por (pelo menos) três motivos:
1) Obviamente estamos em uma sociedade machista, que vê a mulher como inferior. A ideia de que ela deve servir ao homem sexualmente e fazer sexo no momento em que ELE quer não só é difundida, mas muito praticada. Muitas esposas vivem isso em seu dia-a-dia. A história do homem que chega bêbado em casa e obriga a mulher a fazer sexo é comum (o que para mim não passa de outra forma de estupro).
2) A sociedade, para conter os delitos, cria punições; não só no sentido da lei, mas é assim que as crianças são educadas – se fez algo de errado, recebe um castigo para aprender a não cometer o mesmo erro. No caso o estupro é uma espécie de castigo, uma agressão, logo se procura o motivo que gerou essa punição.
3) É difundida a ideia de que o homem tem um instinto sexual incontrolável e o estupro nada mais é do que a aplicação prática dessa ideia. Desde cedo ele é ensinado que sexo é bom (enquanto a mulher deve adiar o máximo possível para fazer sexo), e seu temperamento é naturalizado como violento. As duas coisas juntas geram a violência sexual.
A partir do segundo ponto ouvimos os mais diversos argumentos que buscam as motivações que levaram ao estupro: a roupa dela era curta, ela estava bebendo em uma festa, se o estupro foi cometido por um conhecido ou alguém com quem a pessoa tem ou teve um relacionamento (um namorado ou ex) ela é acusada de ter permitido, provocado etc.. Esse tipo de coisa também chega a ser questionada pelos próprios policiais que recebem a denúncia do estupro na delegacia, o que impele as mulheres a não fazer a denúncia.
Nós mulheres temos que repetir e enfatizar há décadas que temos o direito de nos vestirmos como quisermos, e que isso não dá o direito a uma pessoa de nos assediar sexualmente, moralmente, e muito menos de nos estuprar. A “Slut Walk” é mais uma afirmação a esse respeito, por isso a considero válida.
Infelizmente o estupro se tornou algo tão banal que em Americana/SP no ano passado uma mulher foi estuprada no centro da cidade, às 14:30h da tarde, próximo ao corpo de bombeiros – e este é somente um dentre diversos exemplos. Não há mais hora ou lugar. A questão não é simplesmente becos sombrios, andar com roupas curtas à noite, um estranho que te ameaça com uma arma (branca ou de fogo). Essas cenas estão em nosso imaginário, mas o estupro é muito mais corriqueiro que isso. Ele pode ser cometido em qualquer lugar, por qualquer um, a qualquer hora do dia ou da noite. A prática tem sido cada vez mais naturalizada, sendo até motivo de piadas (nada engraçadas), como a de Rafinha Bastos, que disse que mulher feia deveria agradecer por ser estuprada, porque no caso dela isso não é um crime, mas uma oportunidade.
O estupro, na minha visão, é a pior agressão que uma pessoa pode sofrer, já que não é só física, mas moral, política e ética. Porém não se trata somente de lutar pelo “fim do estupro”. Ele é apenas um dos reflexos de uma educação machista que continua existindo, talvez seja até mesmo a prática dessa educação levada ao seu extremo. Mudá-la é uma árdua tarefa cotidiana, mas que não pode ser deixada de lado (falarei disso em outro post).

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