Arquivo de agosto \09\UTC 2013

Sobre a reabilitação de agressores e o texto de Lola

Acabo de ler o texto “Não me perdoo pelas pessoas que estuprei” no blog “Escreva Lola Escreva”. Gostava de algumas coisas do blog da Lola mas desde que participei de uma roda de conversa (não me lembro exatamente o tema, mas algo relacionado a feminismo, violência contra a mulher, etc.) em que ela estava junto com outra professora não consegui ler praticamente mais nada do que ela escreve, fiquei surpresa com sua abstração acadêmica e seu relativismo nas falas apesar da suposta coerência de seus textos. Nesta ocasião Lola foi muito difusa e claramente percebi (e não só eu, mas outras companheiras feministas libertárias também) como ela mudava seus argumentos de acordo com as intervenções de outras mulheres. Neste dia me lembro da Lola falando, assim como neste texto, em “reabilitação” de agressores, além da relativização de assédios verbais que sofremos nas ruas. Parecia que ela queria agradar a todxs, mulheres e homens (apesar da maioria ali ser mulher), baseada em um modelo de justiça abstrata que olha as pessoas como iguais e passando por cima das desigualdades existentes. Voltarei a este ponto mais adiante.

Enfim, Lola publicou em seu blog um e-mail de um estuprador arrependido com a intenção de fazer uma crítica ao “punitivismo muito forte” por parte de algumas feministas, comparando-as aos reacionários, defensores da pena de morte e da redução da maioridade penal. (Aliás para ela me parece que qualquer crítica a seus textos abstratos é feita por reacionários, o que é uma maneira bem simplista de reduzir a questão).

Um pouco antes de ler este texto eu havia lido um outro com o título “Escreva Julia Escreva”, onde uma mulher desabafa que seu estuprador teve voz, ela não. Só fui encaixar as coisas depois de ler o texto da Lola e entendi que essa era uma resposta de uma sobrevivente. Uma resposta seca, direta e com muita dor, com certeza. Fiquei pensando na raiva que senti lendo o texto da Lola, e que não deve ter chegado nem perto da raiva em que esta mulher sentiu. Porque mesmo Lola cogitando (e divagando sem fim, querendo defender uma forma de justiça abstrata) que as pessoas estupradas pelo cara que enviou o e-mail poderiam ver aquilo, ou que aquele e-mail poderia gerar memórias traumáticas em algumas pessoas ela optou por dar voz ao estuprador, porque acredita na reabilitação dos homens agressores. Mas eu escrevo aqui para engrossar a voz de Julia, porque acredito na sororidade feminista*.

Há muito tempo é colocada a questão às feministas, ou pelo menos às que atuam em movimentos sociais ou em espaços libertários sobre o que fazer com agressores machistas que estão dentro desses espaços. Seria justo excluí-los? Mas isso não acabaria com o machismo, não mudaria a forma de pensar dos homens, então o que muda? Não seria mais útil educar os agressores para que eles não repitam seus erros?

Eu acredito que é sim correto excluir opasoatras agressor. Primeiramente eu insisto: o mais importante em uma situação de agressão é o apoio à agredida. Nós sabemos que quando uma mulher é agredida o que acaba acontecendo é que ela se retira do espaço social em questão (ou dos vários espaços em que ela frequentava em comum com seu agressor) e o homem continua, já que obviamente seria mais do que desagradável encontrá-lo. Além disso, devido ao machismo ainda há a ideia muito forte de que os homens seriam melhores em atuações políticas, teriam mais conhecimento de causa, mais legitimidade e claro, ele conta com uma rede de fraternidade machista enorme para defendê-lo e apoiá-lo mesmo que esteja errado, e deste modo o espaço em questão é tido como dele por direito. Muitas mulheres já sentiram isso na pele, e me incluo dentre estas. Muitas vezes o agressor tem mais apoio que nós. A ideia de “reabilitação” só reafirma isso. Quando passei por uma situação desse tipo houve um esforço de meus “amigos feministas” (e espero que vocês tenham a oportunidade de ler esse texto, seus MERDAS) em reabilitar o cara em questão e claro, criticar minhas atitudes, o porquê não fui lá explicar ao agressor o quanto ele é um escroto e pedir pra ele mudar e não repetir os mesmos erros com outras mulheres. Como se nós mulheres tivéssemos que implorar a um homem para que ele nos trate como gente, com respeito. E como se isso não fosse obrigação de homens que tem contato com o feminismo, e como se eles não soubessem das merdas que fazem. Errar todos nós erramos, com certeza, mas algumas coisas têm limites, limites esses que os agressores sabem, mas não se importam em violar.

Lola também comenta sobre grupos de homens que conversam sobre a razão de sua violência, mas eu nunca vi nenhum grupo desse. O que vejo são homens entrando em grupos feministas e querendo cagar regra, falando qual seria o modo mais correto de nos posicionarmos além de reclamar quando nos organizamos em grupos fechados sem homens. E por fim, quando no último parágrafo de seu texto a autora coloca dados estatísticos relativizando estupradores e não dizendo nada concreto ela finge que não toma uma posição, mas que apenas propõe um questionamento sobre o tema, terminando o texto de uma forma supostamente mais neutra, sendo que sua posição já está bem clara no restante do texto.

Gostaria de pontuar algumas coisas. Primeiro acho que criticar outra feminista tem sim seus problemas, afinal em um mundo patriarcal que joga mulheres contra mulheres o tempo todo temos que lutar pela nossa união. Mas isso não significa que não devemos ter auto-crítica dentro dos tantos feminismos existentes. Nem todos me representam e minha posição libertária/anarquista sempre foi muito clara, apesar de isso não ser necessariamente um impedimento à união com outras mulheres em determinadas situações. Porém em minha visão este feminismo de Lola (que sim, pode trazer pontos positivos na vida de várias mulheres em outros momentos) engrossa a voz dos homens, que é a dominante. Não acredito que nós feministas precisemos dar voz aos agressores com a intenção de sermos “justas”. Este conceito de justiça abstrato é o conceito dos opressores e dominantes, e cabe muito bem a eles – afinal é bom relativizar a punição quando interessa. Acho que nós feministas libertárias temos buscado outros meios de denunciar agressores em nosso meios, sem necessariamente recorrer à polícia – instrumento de dominação de classe dentre outras coisas – como através do escracho, do boca a boca, contando o que aconteceu. E é isso que precisamos ainda fortalecer. Precisamos fortalecer as mulheres, as sobreviventes, e não dar MAIS voz aos agressores.

Os agressores já têm sido “reabilitados” desde sempre por seus amigos que julgam ser feministas, têm sido ouvidos e amparados e desde sempre fingem que mudaram seus comportamentos, apesar das reincidências que vemos. E se me disserem que a reabilitação do estuprador não exclui o apoio à vítima, neste caso digo de forma bem clara: quando em nossa sociedade o homem tem mais poder (simbólico, social, político, etc.) que a mulher, quando se dá voz a ele necessariamente se está calando a voz da vítima, porque ambas não tem o mesmo peso, o mesmo valor social. Abstração acadêmica na rua não, Lola.

CONTRA A fraternidade machista, SORORIDADE FEMINISTA!

* solidariedade, apoia-mútua, companheirismo entre mulheres, nossa rede de confiança, amizade, desabafo e resistência em um mundo heteropatriarcal.

injuryforall

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