Arquivo de junho \21\UTC 2013

Um (ou uma tentativa de) posicionamento de uma anarquista sobre os acontecimentos em São Paulo*

Me sinto um pouco precipitada em escrever nesse momento, ainda não consegui digerir tudo o que tem acontecido em São Paulo nesses últimos dias, mas acho que o posicionamento dxs anarquistas se faz URGENTE!

Contextualização rápida: como muitxs** já sabem, às últimas manifestações pela redução da tarifa do transporte público em São Paulo se uniram várias pessoas com pautas diversas, cantando o hino nacional e com bandeiras do Brasil. Ao sair na rua me senti em uma festa que parecia uma mistura de carnaval com uma comemoração do Brasil vencendo a Copa do Mundo. Ouvi no jornal inclusive uma mulher (branca) dizendo “vamos protestar com alegria”. As pessoas (da classe média) tiraram diversas fotos pra postar no facebook, instagram e tudo o maisditadura: parece que a manifestação virou um passeio.

O anti-vandalismo: na manifestação de segunda-feira, dia 17, que foi seguida à intensa violência policial da quinta-feira (13), foi muito mais gente, como já escrevi aqui. Porém outras pautas foram acrescentadas à principal, a mídia mudou seu discurso e estava apoiando, a polícia não fez nada. O policialismo partia dxs próprixs manifestantes, que ficavam gritando “sem vandalismo”, “sem violência” e coisas do tipo, ao mesmo tempo em que apelavam para um comportamento violento contra quem estava querendo pixar ou fazer qualquer outra coisa do tipo – pelo que dá pra perceber “violência” para elxs é somente contra objetos inanimados, como muros e vidros de banco, mas a possibilidade de agressão física contra as pessoas que tentaram fazer essas coisas é valida para manter a “paz” na manifestação.

Dentro disso tudo já havia uma amostra do que viria depois, com gritos pelo “impeachment da Dilma”, do Alckmin, pautas vazias como “contra a corrupção”, dentre outras. A ideia era a de todos unidos pela Nação.

Acredito que a partir do momento que a grande mídia passou a apoiar as manifestações devemos nos lembrar de nossa própria história, ainda bastante recente:

Capa do jornal “O GLOBO”, no dia seguinte ao GOLPE MILITAR DE 64: “Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.”

Depois de segunda-feira, a tendência foi piorar. O que se viu foram manifestações nacionalistas cada vez mais fortes e além do rechaço ao “vandalismo” e “violência” passou a haver um maior rechaço às bandeiras dos partidos políticos em prol de uma única bandeira, a do Brasil. Skinheads saíram às ruas agredindo pessoas que estavam de vermelho, pessoas tentaram atear fogo em umalatuff ocupação sem-teto no centro da cidade. É a extrema direita sabendo se aproveitar das manifestações para seus fins nacionalistas, racistas, higienistas, dentre tantos outros.

Uma das coisas que me preocupam nisso tudo é que muita gente está participando e aderindo a este discurso da bandeira do Brasil sem refletir sobre o que isso está fortalecendo – a direita. A direita e todo o seu conservadorismo através de discursos vagos contra a corrupção, pela saúde e educação, por um país melhor. Coloco aqui um trecho do AI-2, de 1965, que um amigo me enviou:

“A Revolução é um movimento que veio da inspiração do povo brasileiro para atender às suas aspirações mais legítimas: erradicar uma situação e um governo que afundava o País na corrupção e na subversão.


(…) Art. 18. Ficam extintos os atuais partidos políticos e cancelados os respectivos registro
s”

Além disso o jornal “Brasil de Fato” divulgou hoje (21 de junho de 2013) que a Folha de São Paulo realizou ontem uma pesquisa que perguntava com qual afirmação a pessoa se identificava mais: “democracia é sempre melhor do que qualquer outra forma de governo”; “em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que um regime democrático” e “tanto faz se o governo é uma democracia ou uma ditadura”, tendo 53%, 19% e 20% dos votos respectivamente. Segundo o “Brasil de Fato” a notícia sairá sob o título “Apoio ao regime democrático tem ligeira queda”, o que teria um viés antidemocrático. Não quero fazer previsões nem assustar ninguém – ninguém que tenha uma visão menos conservadora de mundo, pelo menos – mas isso tudo serve para nos fazer refletir o que estamos apoiando e o que um posicionamento contra certas coisas fortalece. No caso, se juntar a um coro “sem vandalismo”, “sem violência”, “corrupção não”, “por uma única bandeira” e outros estão claramente fortalecendo a direita nesta situação atual.

luta

Outra preocupação minha é que muitxs estão criticando essa postura antipartidária incluindo xs anarquistas no meio disso tudo, junto com os nacionalistas, cristãos, reacionários. Então eu gostaria de esclarecer algumas coisas. Em primeiro lugar, não nos posicionamos nem na esquerda nem na direita por essa ser uma referência em geral a partidos políticos. Não fazemos parte de nenhum partido porque somos a favor da autogestão, organização das pessoas por elas mesmas, quebra de hierarquia (fortemente presente dentro de qualquer partido de esquerda ou direita) e consequentemente de horizontalidade nas relações sociais. Tampouco somos a favor de qualquer ideia de Nação ou unidade nacional, porque em nossa concepção essa ideia territorial e ideológica separa as pessoas em fronteiras políticas e muitas vezes dificulta nossa união – somos internacionalistas. Como já diz bem o cartaz ao lado, não estamos pela nação mas por todos os povos, em qualquer lugar em que estivermos e atuarmos politicamente.

Dessa forma quero deixar aqui muito claro que não somos de nenhum partido, mas também não somos favoráveis às bandeiras do Brasil e a essa ideia de Nação que vem sido propagada. Não estamos com os nacionalistas porque nosso grito não é “sob uma única bandeira”, mas sim “SEM FRONTEIRAS E SEM BANDEIRAS!”.

antifascista

* esse texto apresenta o posicionamento individual da autora, apesar do uso do plural em alguns momentos pelo pressuposto de que há dentro de certas correntes anarquistas ideias em comum que nos unem.

** a letra ‘x’ é utilizada para romper o sexismo linguístico que omite o gênero feminino e coloca o masculino como sujeito único universal, substituindo a letra ‘a’, ‘e’ ou ‘o’.

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Sobre a caminhada-noturna-pacífica-legalista de SP

O que foi esse 5º ato contra o aumento da passagem? Ou como disse um amigo meu, como quinta-feira virou segunda-feira? Apesar de mais pessoas nas ruas a manifestação estava despolitizada, o foco que é o passe livre foi diluído completamente, tudo parecia uma festa ridícula de caras pintadas onde muitxs* (que inclusive não pegam ônibus e metrô, vale reforçar) saíram do conforto de seus lares pela primeira vez para tirar o foco da causa, fazendo o que a Veja, uma das grandes referências do conservadorismo, já havia sugerido em uma de sua edições recentes e transformando o ato em uma caminhada-noturna-pacífica-legalista contra a corrupção e pelo amor à pátria, com bandeiras do Brasil e cantando o hino nacional. Aplaudiram a polícia. Aliás a manifestação não precisou de ação policial porque xs mesmxs que saíram às ruas policiaram xs manifestantes o tempo todo, vaiando e gritando “sem vandalismo” quando alguém quis fazer uma pixação em protesto contra o capitalismo, esse mesmo que tanto beneficia a classe média e seus privilégios, que saíram do ato para tomar sua cerveja importada tranquilamente – e com muita comemoração e alegria, claro! – em algum bar da Vila Olímpia.

Essxs manifestantes foram impedidxs pelos reaças de protestar da forma que queriam, pois afinal de contas o bairro burguês delxs com seus bancos e lojas de automóveis caros não poderia ter expressões que contrariassem seus interesses – mesquinhos e opressores – de classe. E são essxs manifestantes que tomaram bomba de gás lacrimogêneo, gás de pimenta e bala de borracha todos os outros dias, afim de defender a causa do passe livre, sem abstrações como “contra a corrupção” que na verdade só servem para despolitizar e diluir as reivindicações.

992993_653735791322148_447163038_nÉ claro que não se trata somente de passe livre, ou de 20 centavos. Mas também não se trata de ser “contra a corrupção”, “viva o Brasil” ou coisas do tipo. Me falaram inclusive que viram um cartaz escrito “Brasil: ame-o ou deixe-o” – e pra quem não lembra esse era justamente o slogan utilizado pela ditadura militar em uma estratégia muito clara de manutenção desse regime repressivo. Essas reivindicações nacionalitas como esse movimento são reacionárias, porque as fronteiras políticas e artificiais dos países foram criadas com a intenção de separar os povos, como mostra bem a máxima “dividir para conquistar”. Estamos em uma luta anticapitalista, que dentro da lógica global do Kapital têm influência, inclusive mas não somente, no transporte público. O movimento contra a corrupção faz parte de uma luta pela manutenção da estrutura de classes, desse sistema que beneficia poucxs através da exploração de muitxs.

O que me alivia de certa forma é que, como bem sabemos que acontece, muito provavelmente essa classe média reacionária que transformou a manifestação em um dia de caminhada noturna por São Paulo se sentirá com “missão cumprida” e não participará de mais nenhuma manifestação. Melhor assim.

ARRIBA LXS QUE LUCHAN!

 slavoj

* a letra ‘x’ é utilizada para romper o sexismo linguístico que omite o gênero feminino e coloca o masculino como sujeito único universal, substituindo a letra ‘a’, ‘e’ ou ‘o’.

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