Arquivo de dezembro \07\UTC 2012

Agressão e conivência.

Eu pensei e ponderei em escrever sobre uma discussão que tive ontem com um defensor de um agressor machista, mas achei que não valia a pena, que o moleque em questão era só um idiota que não merecia que eu perdesse meu tempo com ele. Porém, ao entrar na internet logo cedo hoje e ver a notícia “Mulher rejeita cantada de homem em bar e leva tiro em Guaratiba” não pude deixar de me revoltar (mais).

Sobre o defensor de agressores:

Ontem estava com um amigo voltando da faculdade, que encontrou dois conhecidos. Esses conhecidos começaram a falar sobre festas, e um deles, que chamarei de M, disse que seu amigo da biologia não estava mais vendendo cerveja no “Quinta e Breja” (festa da USP) porque “umas feministas” (com tom pejorativo, claro) haviam feito escracho contra esse amigo. Tentando me lembrar da história questionei o motivo do escracho, e este disse que era porque uma menina disse que o cara da biologia havia batido nela. Então M começou a dizer que a menina devia ter inventado tudo aquilo para ferrar com o cara (isso mesmo!). Aí eu comecei a falar que assumir e expor que se sofreu uma violência é difícil, uma humilhação para a mulher, então por que ela inventaria aquilo tudo?

ImageEntão M me disse que no momento do escracho ele queria falar com as feministas para defender o amigo agressor, e esse próprio amigo disse que havia batido na menina (contraditório? Magina!). M começou a me falar que não tinha sido nada demais, que o amigo agressor estava de cabeça quente, que não pegou ela e “deu porrada pra valer” e que ela mereceu. Obviamente comecei a discutir com o cara, ele disse para o amigo “estou começando a ficar nervoso” (com a intenção de me intimidar?), eu questionei se ele iria me bater, ele disse que não. Enfim, ele foi embora e eu também.

Fui embora indignada (mas não surpresa) com o fato de M defender um agressor de mulheres. A amizade com o cara não impede que ele admita que o amigo errou, e feio. Não impediria que ele cobrasse a atitude escrota do amigo. Mas M preferiu primeiro negar o ocorrido, depois amenizar a situação e, como se não bastasse, culpar a vítima – ela mereceu.

Tiro em Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro:Image

A notícia é de ontem à tarde. Débora, estudante de enfermagem de 31 anos havia ido ao bar para comprar cigarros, encontrou uns amigos e parou um pouco para conversar. Um homem começou a dar em cima dela (provavelmente falando aqueles “elogios” que não podemos responder porque corremos o risco de sermos agredidas), a obrigou a beber cerveja e o dono do bar, percebendo a situação, interveio. O homem em questão respondeu agressivamente e o dono resolveu fechar o bar. Débora foi acompanhada para casa com dois amigos, mas eles encontraram o agressor na esquina, que estava armado e disse que ia matá-la. Débora saiu correndo e o agressor deu dois tiros, um pegou no chão e o outro na perna de Débora, que está internada no hospital. Ele também é suspeito de ter estuprado várias mulheres.

Notícia com vídeo e depoimento da irmã e da mãe de Débora aqui.

E o que uma coisa tem a ver com a outra?

Não estou dizendo que as situações são iguais, porém a lógica (patriarcal) é muito parecida.

Para M não há problema em agredir uma mulher, afinal de contas não foi “porrada pra valer” e ela merecia. Era preciso que a menina ficasse sangrando no chão para que isso fosse considerado grave? O que me faz pensar que M poderia ser um agressor de mulheres também, já que ele não vê problemas nisso.

ImageO que acontece, se tratando de violência entre homens e mulheres com algum laço afetivo, é que há uma evolução das agressões, que inclui violência verbal, psicológica, física ou outras. Por isso o agressor deve ser denunciado o quanto antes, e a mulher deve sair dessa situação o quanto antes, já que as agressões podem passar a se tornar cada vez mais frequentes e violentas. Além disso, vale lembrar que assassinatos de mulheres por seus companheiros ou ex-companheiros são comuns. No site do Estadão há a notícia de uma pesquisa que mostra que em 10 anos, 10 mulheres foram assassinadas por dia no Brasil. POR DIA. Pelo site R7: “De acordo com a polícia (…) na maioria dos casos, os agressores são presos em flagrante, negam que tenham cometido o crime e afirmam que a vítima mereceu ser agredida”.

De maneira similar, para o agressor de Débora, ela mereceu levar um tiro. Para ele, ela merecia morrer, porque as mulheres são vistas como sua propriedade, e quando elas não fazem o que ele gostaria que fizessem elas simplesmente não merecem sequer viver.

Escrevo para uma que façamos uma reflexão: de que modo os meninos estão sendo criados? Como são ensinados a se portar em relação às mulheresImage? Como são ensinados a lidar com seus sentimentos, sua tristeza, sua raiva? (Na maioria das vezes isso é descontado em atitudes agressivas, violentas). Como as mulheres são tratadas e representadas na nossa sociedade?

Escrevo porque é nosso direito uma vida livre de violência. Para que homens repensem suas atitudes e não sejam coniventes com amigos agressores, mas que os critiquem sim, para que estes minimamente tenham a consciência de que erraram e que não repitam o ocorrido com outras mulheres. E para que as mulheres continuem denunciando e expondo seus agressores, para que nenhuma agressão fique sem resposta!

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