Arquivo de outubro \22\UTC 2012

O machismo em espaços libertários (ou o machismo nosso de cada dia)

Muitas vezes nos deparamos com discursos e situações machistas dentro de espaços ditos libertários. É recorrente ouvirmos discursos machistas vindos de homens que se dizem anarquistas e até mesmo feministas, mas geralmente quem critica tais atitudes são as mulheres e não os homens.

Quando as mulheres tomam o posicionamento de criticar esse tipo de conduta (que não deveria existir entre pessoas que se dizem igualitárias, libertárias, feministas, etc.) elas muitas vezes são desqualificadas de alguma forma como “radicais demais” ou até mesmo “feminazis”. O homem machista continua participando do espaço como se nada tivesse acontecido e geralmente sua conduta é apaziguada. Eu mesma já ouvi de um “anarquista”: “o cara é um bom militante, mas é meio machista” (!!!). Mas como um homem machista que diz lutar pela igualdade e contra opressões pode ser um bom militante? Isso é uma contradição em termos!

Os homens quase nunca tomam uma posição. Mesmo quando está claro que a conduta do homem em questão foi machista (depois de diversas provas e argumentações, é claro) os outros raramente se posicionam contra. Tendem a fazer o discurso da “indiferença” ou a favor do colega.

Porém nada é mais falso do que esse discurso da indiferença. Ao se manter “neutro” perante o machismo é sempre o opressor que se beneficia, nunca o oprimido. A conduta do machista é relevada e consequentemente tida como aceitável. Sua presença no espaço é legitimada. As mulheres é que devem relevar o machismo do homem em questão se quiserem frequentar o mesmo espaço. Mas se elas resolvem então criar um espaço de troca entre elas são tratadas como “femistas”, “anti-homens”, injustas e até mesmo nazistas.

Não se trata aqui de polarizar homens e mulheres, ou de um posicionamento contra os espaços mistos, em que ambos participam juntos. Mas se trata de uma crítica ao posicionamento dos homens nesses espaços, ou à falta de autocrítica deles.

Ser feminista dentro desses espaços não é um favor dos homens para as mulheres, mas uma obrigação. E ser feminista se trata de combater o machismo ativamente, não de um apoio passivo que fica só em palavras. Não devemos aceitar o machismo de supostos companheiros. Condutas opressoras devem ser apontadas e combatidas. Repensar o seu próprio machismo é algo que deve ser feito constantemente.

A luta contra opressões não deve ficar restrita a um só campo. De que adianta ser contra o racismo, contra a opressão de classe e continuar perpetuando a opressão machista? A reprodução das desigualdades deve ser criticada e combatida, principalmente dentro dos espaços libertários, já que estes se propõem a lutar pela igualdade.

 

Glossário:

Machismo: desvalorização das mulheres em relação aos homens e de tudo o que é tido como feminino em relação a tudo que é tido como masculino (e isso não vale só para as pessoas, mas para atividades, atitudes, objetos, etc.). É a criação e manutenção de normas de conduta e estereótipos.

Feminismo: é uma luta histórica que busca a emancipação das mulheres, a igualdade de oportunidades e combate aos preconceitos e desvalorizações do que é tido como feminino.

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