Culturas para pensar…

Lendo um texto de antropologia de Marshall Sahlins, me deparei com este depoimento de Finau, chefe tonganês do início do século XIX. O chefe reflete sobre a descrição que lhe foi feita por William Mariner (inglês que estava na ilha Fiji) sobre o dinheiro:

“Se”, disse ele, “dinheiro fosse feito de ferro e pudesse ser convertido em facas, machados e cinzeis, haveria algum sentido em dar um valor a ele; mas, do jeito que é, não vejo nenhum. Se um homem”, acrescentou, “tem mais inhame do que quer, que troque por carne de porco ou gnatoo (tecido de casca de árvore). É claro que o dinheiro é muito mais acessível e conveniente, mas, então, como não se deteriora quando guardado, as pessoas vão acumulá-lo, em vez de partilhar com os outros, como um chefe tem de fazer, e vão tornar-se egoístas; ao passo que, se a principal propriedade de um homem fossem provisões, como efetivamente deve ser, sendo o mais útil e necessário, ele não as poderia armazenar, pois estragariam, e seria obrigado a trocá-las por alguma coisa útil ou partilhá-las com seus vizinhos, chefes inferiores e dependentes em troca de nada”. E concluiu dizendo, “Agora entendo muito bem o que torna os Papalagis* tão egoístas – é esse dinheiro” (Martin, 1827, 1:213-14).
* homens brancos

Zulus, sul da África

O que esse depoimento me fez refletir é na dificuldade que as pessoas têm em pensar fora de suas próprias culturas. Por ser anarquista me deparo frequentemente com a questão colocada por outros: “mas como seria possível existir uma sociedade sem o Estado?”. Elas esquecem que o que nós vivemos é apenas um modelo dentre tantos outros. O Estado não foi e não é algo universal (apesar da sua presença atualmente ser muito maior que sua ausência se olharmos com base em extensão territorial).
Sociedades sem Estado possuem diversos tipos de organização, baseadas em critérios também diversos. Algumas se baseiam no totemismo, outras em religião, outras em parentesco, etc. Nesse sentido, o anarquismo seria uma outra forma de organização, baseada no apoio-mútuo. Uma alternativa a esse sistema atual que favorece uns em detrimento de outros. A autogestão anarquista (ou autogoverno) é a forma mais prática de nos organizarmos em busca de nossos próprios interesses. O que deveria ser visto como absurdo é um Estado que atua por todos (porém de forma desigual) e ninguém responde por si mesmo (a não ser nas eleições), o modo como o status econômico é visto como essencial (lembrando que o dinheiro é apenas um pedaço de papel que não tem valor em si mesmo), a falta de apoio-mútuo que hoje existe entre os indivíduos da sociedade – sendo que as ações de cada um contribuem para a vivência de todos -, dentre muitos outros aspectos do sistema em que vivemos.

Yanomami, Brasil

Sobre a ideia anarquista não vou explicá-la no momento, esta não é a intenção da minha postagem, porém recomendo o livro “A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos” de José Oiticica como base para entender um pouquinho mais sobre esse tipo de organização, lembrando que não existem regras rígidas ou preestabelecidas, trata-se apenas de ideias e sugestões possíveis.
A minha ideia é sugerir que pensemos além do sistema em que vivemos: outro modo de viver é possível, basta querer (e lutar, muito) para que isso aconteça.

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