A Slut Walk e a naturalização do estupro

Nos Estados Unidos tem ocorrido desde abril de 2011 em vários lugares a “Slut Walk”, ou “Marcha das Vadias”. Originalmente a palavra slut significa “mulher desordeira”, porém vulgarmente se traduz como “vadia”, o que já inicialmente abre caminho para pensarmos na mudança desse significado: há um pressuposto de que a mulher deve ser comportada, resignada, e as que não se enquadram nesse perfil são rotuladas de vadias.
A ideia da manifestação surgiu a partir do comentário de um policial canadense que disse: “se a mulher não se vestir como uma vadia, reduz-se o risco de ela sofrer um estupro”. Com isso vemos como a sociedade encara o estupro com naturalidade, e o pior: está culpando a vítima. Isso ocorre, em minha opinião, por (pelo menos) três motivos:
1) Obviamente estamos em uma sociedade machista, que vê a mulher como inferior. A ideia de que ela deve servir ao homem sexualmente e fazer sexo no momento em que ELE quer não só é difundida, mas muito praticada. Muitas esposas vivem isso em seu dia-a-dia. A história do homem que chega bêbado em casa e obriga a mulher a fazer sexo é comum (o que para mim não passa de outra forma de estupro).
2) A sociedade, para conter os delitos, cria punições; não só no sentido da lei, mas é assim que as crianças são educadas – se fez algo de errado, recebe um castigo para aprender a não cometer o mesmo erro. No caso o estupro é uma espécie de castigo, uma agressão, logo se procura o motivo que gerou essa punição.
3) É difundida a ideia de que o homem tem um instinto sexual incontrolável e o estupro nada mais é do que a aplicação prática dessa ideia. Desde cedo ele é ensinado que sexo é bom (enquanto a mulher deve adiar o máximo possível para fazer sexo), e seu temperamento é naturalizado como violento. As duas coisas juntas geram a violência sexual.
A partir do segundo ponto ouvimos os mais diversos argumentos que buscam as motivações que levaram ao estupro: a roupa dela era curta, ela estava bebendo em uma festa, se o estupro foi cometido por um conhecido ou alguém com quem a pessoa tem ou teve um relacionamento (um namorado ou ex) ela é acusada de ter permitido, provocado etc.. Esse tipo de coisa também chega a ser questionada pelos próprios policiais que recebem a denúncia do estupro na delegacia, o que impele as mulheres a não fazer a denúncia.
Nós mulheres temos que repetir e enfatizar há décadas que temos o direito de nos vestirmos como quisermos, e que isso não dá o direito a uma pessoa de nos assediar sexualmente, moralmente, e muito menos de nos estuprar. A “Slut Walk” é mais uma afirmação a esse respeito, por isso a considero válida.
Infelizmente o estupro se tornou algo tão banal que em Americana/SP no ano passado uma mulher foi estuprada no centro da cidade, às 14:30h da tarde, próximo ao corpo de bombeiros – e este é somente um dentre diversos exemplos. Não há mais hora ou lugar. A questão não é simplesmente becos sombrios, andar com roupas curtas à noite, um estranho que te ameaça com uma arma (branca ou de fogo). Essas cenas estão em nosso imaginário, mas o estupro é muito mais corriqueiro que isso. Ele pode ser cometido em qualquer lugar, por qualquer um, a qualquer hora do dia ou da noite. A prática tem sido cada vez mais naturalizada, sendo até motivo de piadas (nada engraçadas), como a de Rafinha Bastos, que disse que mulher feia deveria agradecer por ser estuprada, porque no caso dela isso não é um crime, mas uma oportunidade.
O estupro, na minha visão, é a pior agressão que uma pessoa pode sofrer, já que não é só física, mas moral, política e ética. Porém não se trata somente de lutar pelo “fim do estupro”. Ele é apenas um dos reflexos de uma educação machista que continua existindo, talvez seja até mesmo a prática dessa educação levada ao seu extremo. Mudá-la é uma árdua tarefa cotidiana, mas que não pode ser deixada de lado (falarei disso em outro post).

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  1. #1 por Natalia em 09/06/2011 - 7:00 pm

    Bem dito Fer.

    bjo Nat

  2. #2 por Kenny Rogers em 10/06/2011 - 3:22 pm

    gostei muito da postagem, só ao fato de dizer que o estupro está sendo naturalizado que não concordo, acho que o ato de estuprar alguém é sim odiado por todos, dificilmente vc contara um caso de estupro para uma pessoa e ela achara isso uma coisa comum, o estupro é um dos crimes não aceitavel pelos proprios bandidos, estuprador na cadeia se não tiver cela especial é morto pelos outro presos. Só nessa questão q eu descordo de resto gostei do post. =) vou visitar seu blog sempre.

    bjos Fer Menina

    obs: só tah faltando desenvolver uma linguagem visual pro blog =)

  3. #3 por Gritos Libertários em 11/06/2011 - 3:05 pm

    Acho que depende da situação Kenny. No caso de pessoas casadas, por exemplo, ele é sim naturalizado. E o fato de culpar a vítima procura diminuir a gravidade da situação também. Apesar disso concordo com você quanto aos próprios presidiários terem raiva de estupradores (não que eles realmente se importem com a situação, mas se importam com as mulheres deles que estão fora da cadeia. Até porque, de que modo eles mesmos tratam essas mulheres? Será que com respeito? Há casos e casos). Ninguém nunca vai falar que concorda com o estupro, porém isso depende da forma como ele é mostrado, existem “atenuantes” e falar que a menina é uma vadia, que ela transa com vários caras, que estava com tal roupa, que estava bebendo, etc, são alguns deles.

    Quanto ao visual do blog eu concordo, mas não sei fazer essas coisas, quer me ajudar? hahaha

    beijos!

  4. #4 por Kenny Rogers em 12/06/2011 - 1:46 pm

    Sim sim Fer, tem muitos fatores mesmo, se fomos analisar todos daria uma conversa longaaa, mas conversar pessoalmente sobre isso é melhor rsrsrs

    Então eu te ajudo sobre o visual do blog, mas já saiba que criar uma linguagem visual é meio chatinho rsrs não sou expert nessa area, mas dá pro gasto rsrsrs

  5. #5 por Gritos Libertários em 17/06/2011 - 3:13 pm

    Belo texto, Fer. Parabéns! Educar os meninos desde cedo para o respeito é um caminho. Muitas vezes, são as próprias mães que acabam passando uma visão machista a eles.
    Bjs!
    Tânia Alexandre Martinelli.

  6. #6 por Thiago Silva Barbosa em 17/06/2011 - 5:12 pm

    Fernanda,

    Li o post e gostei, no entanto, não concordo com a parte que fala a respeito do comentário do Rafinha Bastos. Não sou nenhum fan nem nada, acontece que como você mesmo disse é só uma piada e veja bem, não acho que devemos limitar um artista, no caso um comediante, no que diz respeito aos temas que ele pode ou não abordar, ou seja, se seguirmos nessa linha também não poderia ser abordado temas para comédia como, por exemplo, terremoto no Japão por ter sido um fato muito triste para milhares de pessoas.
    Ou talvez, você esteja discordando não especificamente do Rafinha Bastos pelo comentário pontual, mas sim de uma gama de comediantes que usam temas delicados para fazer esse tipo de humor.

    Thiago Silva Barbosa

  7. #7 por Gritos Libertários em 17/06/2011 - 5:36 pm

    Thiago, discordo de você. Não me agradam as piadas sobre o desastre no Japão, nem sobre estupro, nem piadas racistas ou homofóbicas, enfim. Discordo, como você supôs, tanto do Rafinha Bastos quanto de outros “humoristas” que fazem esse tipo de piadas.
    A questão de limitar ou não o que alguém pode dizer na verdade é bem atual, com a lei que aprova a criminalização da homofobia no Brasil. Fica o direito à liberdade de expressão versus o direito de não ser discriminado. No caso do racismo a lei decidiu que a pessoa não pode falar o que quiser. Será isso injusto? Um atentado à liberdade de expressão? Eu não acho.
    Na minha opinião fazer uma piada sobre a violência contra a mulher não tem graça nenhuma, já que esse assunto deve ser encarado com muita seriedade. Banalizar o assunto é a pior decisão a ser tomada.
    Tem um texto sobre esse caso do Rafinha Bastos que eu concordo, dá uma olhadinha:
    http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2011/05/politicamente-incorreto-nao-e.html
    abraço!

    • #8 por Thiago Silva Barbosa em 17/06/2011 - 7:11 pm

      Oi Fernanda, li o texto do link apesar de continuar não concordando. Na MINHA opinião, fazer uma piada não vai banalizar o estupro, por exemplo, a ponto de perder a relevância do tema e nem aumentará os índices desse crime.
      Quanto as leis sobre discriminação e afins, eu acho que tem sim problema em limitar a liberdade de expressão, afinal nós temos o direito de ter a opinião que quisermos, é claro que se for um pensamento embasado em preconceito deve ser revisto pelo seu locutor. Mas quanto a questão de ofender outras pessoas, segue dois videos que abordam o assunto que particularmente é bem próximo do que eu penso.
      Ainda acho que tais leis servem mais para algumas pessoas tirarem algum proveito com má fé do que realmente ajudar a sociedade como um todo.

  8. #9 por Lucas em 16/06/2012 - 2:40 pm

    O estupro tem sido naturalizado sim, e uma das ferramentas para naturalização são as “piadas”. Essa liberdade de expressão neoliberal é, naturalmente, mais uma das maquiagens sobre preconceitos, e conceitos segregativos. Na “piada” o estupro transfora-se em humor. A mulher é extremamente banalizada e o estupro natural – essa naturalidade se expressa na resposta do publico à “piada”: risos e gargalhadas – nesse ponto publico e “humorista” estão acordados sobre “é SÓ uma piada”. A banalização é explicita, a naturalidade consentida.
    Conheço alguns caras que ja pensaram em estuprar ou disseram frases como: “mina ‘cu doce’, tem que ser estuprada” ou dirigidas a mulheres homossexuais: “vou estuprar a vagaba pra aprender a ser mulher”. Não era brincadeira e os falantes disseram as frases orgulhosos do “ser macho”.
    A naturalização do estupro e as piadas como ferramentas de normalização e banalização não são questões de opiniões e sim realidade produzida e reproduzida diariamente.

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