Arquivo de junho \09\UTC 2011

A Slut Walk e a naturalização do estupro

Nos Estados Unidos tem ocorrido desde abril de 2011 em vários lugares a “Slut Walk”, ou “Marcha das Vadias”. Originalmente a palavra slut significa “mulher desordeira”, porém vulgarmente se traduz como “vadia”, o que já inicialmente abre caminho para pensarmos na mudança desse significado: há um pressuposto de que a mulher deve ser comportada, resignada, e as que não se enquadram nesse perfil são rotuladas de vadias.
A ideia da manifestação surgiu a partir do comentário de um policial canadense que disse: “se a mulher não se vestir como uma vadia, reduz-se o risco de ela sofrer um estupro”. Com isso vemos como a sociedade encara o estupro com naturalidade, e o pior: está culpando a vítima. Isso ocorre, em minha opinião, por (pelo menos) três motivos:
1) Obviamente estamos em uma sociedade machista, que vê a mulher como inferior. A ideia de que ela deve servir ao homem sexualmente e fazer sexo no momento em que ELE quer não só é difundida, mas muito praticada. Muitas esposas vivem isso em seu dia-a-dia. A história do homem que chega bêbado em casa e obriga a mulher a fazer sexo é comum (o que para mim não passa de outra forma de estupro).
2) A sociedade, para conter os delitos, cria punições; não só no sentido da lei, mas é assim que as crianças são educadas – se fez algo de errado, recebe um castigo para aprender a não cometer o mesmo erro. No caso o estupro é uma espécie de castigo, uma agressão, logo se procura o motivo que gerou essa punição.
3) É difundida a ideia de que o homem tem um instinto sexual incontrolável e o estupro nada mais é do que a aplicação prática dessa ideia. Desde cedo ele é ensinado que sexo é bom (enquanto a mulher deve adiar o máximo possível para fazer sexo), e seu temperamento é naturalizado como violento. As duas coisas juntas geram a violência sexual.
A partir do segundo ponto ouvimos os mais diversos argumentos que buscam as motivações que levaram ao estupro: a roupa dela era curta, ela estava bebendo em uma festa, se o estupro foi cometido por um conhecido ou alguém com quem a pessoa tem ou teve um relacionamento (um namorado ou ex) ela é acusada de ter permitido, provocado etc.. Esse tipo de coisa também chega a ser questionada pelos próprios policiais que recebem a denúncia do estupro na delegacia, o que impele as mulheres a não fazer a denúncia.
Nós mulheres temos que repetir e enfatizar há décadas que temos o direito de nos vestirmos como quisermos, e que isso não dá o direito a uma pessoa de nos assediar sexualmente, moralmente, e muito menos de nos estuprar. A “Slut Walk” é mais uma afirmação a esse respeito, por isso a considero válida.
Infelizmente o estupro se tornou algo tão banal que em Americana/SP no ano passado uma mulher foi estuprada no centro da cidade, às 14:30h da tarde, próximo ao corpo de bombeiros – e este é somente um dentre diversos exemplos. Não há mais hora ou lugar. A questão não é simplesmente becos sombrios, andar com roupas curtas à noite, um estranho que te ameaça com uma arma (branca ou de fogo). Essas cenas estão em nosso imaginário, mas o estupro é muito mais corriqueiro que isso. Ele pode ser cometido em qualquer lugar, por qualquer um, a qualquer hora do dia ou da noite. A prática tem sido cada vez mais naturalizada, sendo até motivo de piadas (nada engraçadas), como a de Rafinha Bastos, que disse que mulher feia deveria agradecer por ser estuprada, porque no caso dela isso não é um crime, mas uma oportunidade.
O estupro, na minha visão, é a pior agressão que uma pessoa pode sofrer, já que não é só física, mas moral, política e ética. Porém não se trata somente de lutar pelo “fim do estupro”. Ele é apenas um dos reflexos de uma educação machista que continua existindo, talvez seja até mesmo a prática dessa educação levada ao seu extremo. Mudá-la é uma árdua tarefa cotidiana, mas que não pode ser deixada de lado (falarei disso em outro post).

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